Chega de "velhinhos”!

Daqueles de quem se fala como se fossem "criancinhas"

Chega de "velhinhos". Daqueles de quem se fala como se fossem "criancinhas". E em relação aos quais, de repente, no lugar da admiração e do respeito, ficasse a condescendência e o paternalismo.

Chega de "velhinhos". Daqueles que, no início da quarentena, eram descritos como se parecessem estar todos tolos e não medissem as consequências do confinamento. E que, agora, devessem estar todos confinados, por tempo indeterminado, por serem uma "população de risco". Em relação aos quais parece que nem sempre se pergunta que custos pode ter, para o seu equilíbrio, essa ideia que faz com que, para muitos de nós, velhice e confinamento perecessem casar tão bem.

Chega de "velhinhos". Daqueles que são "arrancados" do seu mundo, da sua casa e das suas relações e são colocados em casas comunitárias a que se chama "lar" ou "casa de repouso". E que, como se não bastasse o esdrúxulo dessa designação para esses lugares, nalguns casos, têm no seu nome "eterno descanso", "paraíso” ou "céu", por exemplo. Como se as pessoas não tivessem a noção que, de lá, nunca regressam a casa. E como se estivessem todas tão entretidas que nunca se deprimissem ao ter consciência daquilo que se passa com elas, das raras visitas que têm numa semana ou da forma como, em função daquilo que esperariam da família, se sentem na mais corrosiva solidão.

Chega de "velhinhos". Daqueles de quem se fala como se estivessem, agora, a suicidar-se mais, nos lares. Como se, não sendo isso, quase mais nada acerca deles parecesse merecer a nossa preocupação. Como se isso, sim, fosse um alarme (e é!). Mas a depressão em que muitos vivem, todos os dias, nem por isso é o que os faz morrer, para a vida, quase em silêncio. Nem o modo como adequam o discurso a um certo tom de subserviência não fosse importante. Ou a sobremedicação pela qual muitos passam. Ou a forma como nem sempre são tratados como pessoas (mas como "velhinhos").
Não, o mais importante dos nossos actos para com os "velhinhos" não passa por não conseguirmos imaginar que, mais tarde ou mais cedo, seremos como eles. O que, sendo ainda muito centrado no nosso umbigo, já não seria mau. Mas pela dificuldade de nos colocarmos no lugar deles. De sentir com eles. E de (ao menos) imaginarmos o seu sofrimento. Eu acho que, em relação às pessoas mais velhas fazemos de conta que "está tudo bem" porque evitamos pensar nelas, nas omissões da nossa relação com elas e em nós no lugar delas. Às vezes, protege-nos imaginar que eles sejam “velhinhos”. Que pensam de forma entaramelada. Que eles e o Alzheimer têm uma relação de privilégio. E não pararmos para perguntar como se sentem confinados num corpo que manda neles. Confinados a uma esperança de vida sem direito a índices de felicidade. Confinados a espaços de onde não têm liberdade para sair. Sem direito ao seu dinheiro e (muitas vezes) ao seu património. Confinados. Confinados. E confinados!
Não; o mais importante dos nossos actos para com os "velhinhos" passa por não os considerarmos "velhinhos". Passa por reconhecer que têm direito à sua vida, à sua autonomia e aos nossos cuidados. Passa por reconhecermos que, num mundo ocidental mais envelhecido, as pessoas mais velhas não são, sobretudo, um custo acrescido. Mas um adicional de sabedoria que quase todos desprezamos.
Por tudo isto, chega de falarmos das pessoas mais velhas com se fossem "velhinhos"! Respeito! Sim?

 

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