Não matarás!

É na véspera do debate sobre a eutanásia, na Assembleia da República, que voltamos a ouvir nas igrejas de todo o mundo o antigo mandamento: «Não matarás».
Na longínqua caminhada para a Terra Prometida, muitos séculos antes de Cristo, o legislador israelita estabeleceu um princípio com o intuito de proteger o outro da arbitrariedade alheia, em especial, o mais fraco e o indefeso, o estrangeiro ou o escravo. À semelhança do que aconteceu com outros povos, esta lei não deixava margem para dúvidas. Porém, foram admitidas algumas exceções, uma vez que o castigo da pena de morte foi e é lamentavelmente aplicado em diversas situações previamente definidas na lei.
Muitos anos depois, o novo Moisés, o próprio Deus, foi ainda mais exigente com os seus discípulos. Não basta não matar. Até os pagãos respeitam esse princípio. Trata-se de uma lei universal, não há dúvida. Mas é preciso ir mais longe: se o princípio regulador da comunhão com Deus é o amor ao próximo, então é necessário vigiar o coração para que não congemine o mal nessa fábrica imprevisível de afetos. Na oração de todos os dias repetimos: «Não nos deixes cair na tentação, mas livrai-nos do mal». Qual é a pior das tentações? De que mal se trata?
Curiosamente, séculos depois, mais precisamente em 1920, outro judeu, conhecedor das tradições do seu povo, introduz a expressão «pulsão de morte» num corpo doutrinal que iria marcar o pensamento ocidental: a psicanálise. Apesar de contestada por alguns e continuamente reformulada até ao fim da vida, Sigmund Freud mantém este princípio cujas manifestações são tão diversas no quotidiano como o masoquismo e o sadismo. Freud não abdica da noção de «pulsão de morte» já que ele é também vítima dela. Não tivesse fugido para Inglaterra, teria terminado os seus dias numa câmara de gás.
Matar é fácil. Hoje mais ainda. Pode até matar-se à distância, sem sofrimento e sem danos colaterais. Uma morte limpa e segura, diriam alguns, enquanto comem umas pipocas. Se Hitler tivesse estes meios teria tido ainda mais sucesso. Hitler mobilizou uma nação para matar. Estaline, quando morreu, foi chorado por muitos como um pai muito querido mesmo tendo assassinado cruelmente muitos dos seus filhos. Se tivesse ao seu alcance o poder destrutivo de hoje, tudo teria sido mais rápido e limpo. E com menos encargos para o Estado.
O Ocidente está em crise. A possibilidade da morte assistida, já legalmente legitimada em alguns países, diz muito sobre o modo com lidamos com o tema do sofrimento. Umas vezes somos indiferentes. Outras, no entanto, queremos desembaraçar-nos desse incómodo, oferecendo à vítima uma doce morte, «limpa e sem danos colaterais», para não nos doer a consciência.
O Ocidente quer afrouxar o laço que contém a «pulsão destrutiva». Esquece-se que a pulsão de morte expressa em palavras e em gestos, mesmo que aparentemente compassivos, é imparável. Amanhã seremos as suas vítimas. Assistimos à morte lenta do antigo princípio «não matarás». Morremos todos aos poucos.


P. Nélio Pita, CM
Imagem: Grindi/Bigstock.com
Publicado em 14.02.2020


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