Precisamos de cristãos do sorriso, que acreditam no amor e vivem para servir

Hoje Deus fala-nos de vitória e de derrota. S. João, na primeira leitura, apresenta a fé como «a vitória que venceu o mundo» (1 João 5, 4), enquanto que o Evangelho refere a frase de Jesus: «Quem ama a própria vida, perde-a» (João 12, 25).
Esta é a derrota: perde quem ama a própria vida. Porquê?
Não é decerto por ser preciso ter ódio à vida: a vida é para ser amada e defendida, é o primeiro dom de Deus. O que conduz à derrota é amar a própria vida, amar o próprio. Quem vive para o próprio, perde. Pareceria o contrário. Quem vive para si, quem multiplica as suas vendas, quem tem sucesso, quem satisfaz plenamente as suas necessidades, surge como vencedor aos olhos do mundo. A publicidade martela-nos com esta ideia, todavia Jesus não está de acordo e dá-lhe a volta. Para Ele, quem vive para si não perde apenas alguma coisa, mas a vida inteira; enquanto que quem se dá, encontra o sentido da vida e vence.
Por isso há que escolher: amor ou egoísmo. O egoísta pensa em tratar da própria vida e apega-se às coisas, ao dinheiro, ao poder, ao prazer. Então o diabo tem as portas abertas (..). Faz crer que está tudo bem, mas na realidade o coração anestesia-se. Este caminho acaba sempre mal: no fim fica-se sozinho, com o vazio dentro de si. É como a semente do Evangelho: se fica fechada em si fica debaixo da terra só; se, ao contrário, se abre e morre, traz fruto para a superfície.


Deus nos livre de viver em saldos, contentando-nos com meias verdades. Deus nos livre de pensar que tudo está bem se comigo corre bem. Deus nos livre de nos crermos justos se não fazemos nada para nos opormos à injustiça. Deus nos livre de nos crermos bons só porque não fazemos nada de mal



Mas vós podeis dizer-me: dar-se, viver para Deus e para os outros é um grande cansaço para nada, o mundo não gira assim; para seguir em frente não servem sementes, servem dinheiro e poder. Mas é uma grande ilusão: o dinheiro e o poder não libertam o homem, tornam-no escravo. Vede: Deus não exercita o poder para resolver os nossos males e os do mundo. O seu caminho é sempre o do amor humilde: só o amor liberta por dentro, dá paz e alegria. Por isso o verdadeiro poder, o poder segundo Deus, é o serviço (…). E a voz mais forte não é aquela de quem grita mais, mas a oração. E o sucesso maior não é a própria fama (…), mas o próprio testemunho.
Hoje somos chamados a escolher de que parte estar: viver para si (…) ou dar a vida. Só dando a vida se derrota o mal. O P. Pino Puglisi [beato italiano, morto há 25 anos (15 de setembro de 1993) pela máfia] ensina-o: não vivia para fazer-se ver, não vivia de apelos anti-máfia, e também não se contentava por não fazer nada de mal, mas semeava o bem, muito bem. A sua lógica parecia perdedora, enquanto parecia vencedora a lógica do porta-moedas. Mas o P. Pino tinha razão: a lógica do deus dinheiro é perdedora. Olhemo-nos dentro de nós. Ter sempre o impulso para querer: tenho uma coisa e de repente quero outra, e depois outra ainda, sempre mais, sem fim. Quanto mais se tem, mais se quer: é uma dependência terrível (…). Quem se enche de coisas, explode. Quem ama, pelo contrário, encontra-se a si mesmo e descobre quanto é belo ajudar, servir; encontra a alegria dentro de si e os sorrisos fora, como aconteceu com o P. Pino.
Há 25 anos, como hoje, quando morreu no dia do seu aniversário, coroou a sua vitória com o sorriso, com aquele sorriso que não fez dormir de noite o seu assassino, que disse: «Havia uma espécie de luz naquele sorriso». O P. Pino estava sem vida, mas o seu sorriso transmitia a força de Deus: não um clarão que cega, mas uma luz gentil que escava dentro e ilumina o coração. É a luz do amor, do dom, do serviço. Precisamos de muitos padres do sorriso, de cristãos do sorriso, não para levem as coisas com ligeireza, mas porque são ricos apenas da alegria de Deus, porque acreditam no amor e vivem para servir. É dando a vida que se encontra a alegria, porque há mais alegria no dar do que no receber. Gostaria então de perguntar-vos: também vós quereis viver assim? Quereis dar vida, sem esperar que os outros deem o primeiro passo? Quereis fazer o bem sem nada esperar em troca, sem esperar que o mundo se torne melhor? (…) Quereis arriscar pelo Senhor?


«Que posso eu fazer? Que posso eu fazer pelos outros, pela Igreja (…)?» Não esperar que a Igreja faça alguma coisa por ti, começa tu. Não esperar pela sociedade, inicia tu! Não pensar em si próprio, não fugir da tua responsabilidade, escolhe o amor! Sente a vida da tua gente que precisa, escuta o teu povo



O P. Pino sabia que arriscava, mas sabia sobretudo que o verdadeiro perigo na vida é não arriscar, é vaguear entre comodidade, expedientes e atalhos. Deus nos livre de viver em saldos, contentando-nos com meias verdades (…). Deus nos livre de pensar que tudo está bem se comigo corre bem (…) Deus nos livre de nos crermos justos se não fazemos nada para nos opormos à injustiça (…) Deus nos livre de nos crermos bons só porque não fazemos nada de mal (…). Senhor, dá-nos o desejo de fazer o bem; de procurar a verdade detestando a falsidade; de escolher o sacrifício, não a preguiça; o amor, não o ódio; o perdão, não a vingança.
Aos outros a vida dá-se, não se tira. Não se pode acreditar em Deus e odiar o irmão (…). Recorda-o a primeira leitura: «Se alguém diz “eu amo Deus” e odeia o seu irmão, é um mentiroso». Um mentiroso porque falsifica a fé que diz ter, a fé que professa Deus-amor. Deua mor repudia toda a violência e ama todos os homens. Por isso a palavra “ódio” seja eliminada da vida cristã; por isso não se pode acreditar em Deus e submeter o irmão. Não se pode acreditar em Deus e ser-se mafioso. Quem é mafioso não vive como cristão, porque blasfema com a vida o nome do Deus-amor. Hoje precisamos de homens (…) de amor, não de homens (…) de honra; de serviço, não de subjugação; de caminhar juntos, não de perseguir o poder. Se a litania mafiosa é «tu não sabes quem eu sou», a cristã é «eu preciso de ti». Se a ameaça mafiosa é «hás de pagar-mas», a oração cristã é «Senhor, ajuda-me a amar». Por isso digo aos mafiosos: mudai (…). Deixai de pensar em vós mesmos e no vosso dinheiro (…), convertei-vos ao verdadeiro Deus de Jesus Cristo (…). De outra forma a vossa vida perder-se-á e será essa a pior das derrotas.
O Evangelho termina hoje com o convite de Jesus: «Se alguém me quer servir, siga-me». Siga-me, isto é, ponha-se a caminho. Não se pode seguir Jesus com as ideias, é preciso dar-se que fazer. «Se alguém faz alguma coisa, pode fazer-se muito», repetia o P. Pino. Quantos de nós colocam em prática estas suas palavras? Hoje, diante dele, perguntemo-nos: «Que posso eu fazer? Que posso eu fazer pelos outros, pela Igreja (…)?». Não esperar que a Igreja faça alguma coisa por ti, começa tu. Não esperar pela sociedade, inicia tu! Não pensar em si próprio, não fugir da tua responsabilidade, escolhe o amor! Sente a vida da tua gente que precisa, escuta o teu povo (…). Este é o único populismo possível, o único “populismo cristão”: sentir e servir o povo, sem gritar, acusar e suscitar contendas.
Assim fez o P. Pino, pobre entre os pobres da sua terra. No seu quarto a cadeira onde estudava estava partida. Mas a cadeira não era o centro da ida, porque não ficava sentado a descansar, mas vivia em caminho para amar. Eis a mentalidade vencedora. Eis a vitória da fé, que nasce do dom diário de si. Eis a vitória da fé, que leva o sorriso de Deus pelas estradas do mundo. Eis a vitória da fé, que nasce do escândalo do martírio. «Ninguém tem maior amor do que este: dar a sua vida pelos próprios amigos». Estas palavras de Jesus, escritas no túmulo do P. Puglisi, recordam a todos que dar a vida foi o segredo da sua vitória, o segredo de uma vida bela. Hoje (…) escolhamos também nós uma vida bela.


Papa Francisco
Homilia na missa celebrada em Palermo (Itália), 15.9.2018
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco | D.R.
Publicado em 15.09.2018


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