Para descansar bem

Todos precisamos de descansar mas não é nada óbvio como é que isso se faz.

 Um dia os apóstolos regressaram das missões nas aldeias*. Deviam estar estoirados porque “eram tantos os que iam e vinham, que nem tinham tempo para comer” (v. 31). Jesus está lá quando eles regressam, escuta-os contarem o que aconteceu nas suas missões e depois convida-os a irem com ele recuperar forças: «Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco.» (v. 31) Como foram “de barco”, percebemos que esse sítio isolado seria junto do Lago da Galileia. Quem já lá esteve percebe: apetece mesmo descansar naquele local…

Estar naquele barco com Jesus e entrar lago adentro deve ter sido fantástico para eles. De que falariam? Que bom que deve ter sido esse tempo gratuito com Jesus!
Só que o Lago da Galileia é um espaço aberto… As pessoas perceberam facilmente para onde Jesus e os apóstolos se estavam a dirigir e foram ao seu encontro caminhando pela margem. Chegaram primeiro que eles. E não eram só 3 ou 4. O evangelista diz que “eram uma grande multidão”.
Ao desembarcar e ver a multidão, a reacção de Jesus foi surpreendente: em vez de os mandar embora, “encheu-se de compaixão porque eram como ovelhas sem pastor e pôs-se a ensiná-los”. E, depois dos ensinamentos deu-lhes de comer: foi a multiplicação dos pães.
Creio que podemos fazer alguns paralelos connosco e com os nossos descansos. Porque é óbvio que todos precisamos de descansar mas não é nada óbvio como é que isso se faz. Quando falo em descansar falo em “carregar baterias” e não só em não trabalhar. E isto vale para quem está em férias mas também para quem quer aprender a descansar mesmo sem estar em férias.

1. Só se descansa bem de coração aberto aos outros.
Ao desembarcar, Jesus podia ter mandado as pessoas embora. Tinha muitas razões para o fazer. Para além de ter tirado aquele tempo para estar só com o seu grupo de apóstolos, Ele próprio tinha acabado de receber a notícia da morte (do assassinato) do Seu grande amigo João Baptista (Mc 6, 33 ss). Jesus podia ter dito às pessoas: Desculpem mas agora é o meu espaço; por favor não Me incomodem. No entanto, a Sua reacção foi outra: sentiu que andavam perdidos (“como ovelhas sem pastor”) e pôs a ensiná-los. Não fechou o Seu coração, teve compaixão deles.
Por vezes, quando entramos em férias, pode ser grande a tentação de fecharmos o coração aos outros e de abraçarmos numa espécie de egoísmo auto-justificado: “Não me incomodem, já dei muito, agora a loja fechou”.


P. Nuno Tovar de Lemos, sj
Por vezes, quando entramos em férias, pode ser grande a tentação de fecharmos o coração aos outros e de abraçarmos numa espécie de egoísmo auto-justificado: “Não me incomodem, já dei muito, agora a loja fechou”. Teríamos razões para o fazer: chegamos ao fim do ano não só cansados mas por vezes também magoados, com feridas. Sonhamos com o verão mas a convivência da família na mesma casa de férias nem sempre é assim tão idílica como imaginámos. Podem vir ao de cima os caprichos, as feridas e os temperamentos de cada um… E a tentação do egoísmo é grande, a tentação de ter as “minhas” férias.
Creio que todos precisamos de ter tempo para nós mas isso não significa fecharmos o coração. São duas coisas diferentes. Uma mãe quando vai dormir está a tirar um tempo para ela mas isso não significa que esteja de coração fechado aos filhos. (Precisamente o oposto: até por amor dos filhos, para estar bem para eles, ela precisa de descansar). E Jesus também ia sozinho para a montanha sem que isso significasse fechar o coração aos outros. Pelo contrário, descia ainda mais disponível.
Que significa estar de coração aberto aos outros? Significa não perder a sensibilidade de coração e a disponibilidade interior em relação a quem está à nossa volta. Não ficar embrutecidos e indiferentes diante dos outros.
Particularizando para o nosso caso, sobretudo para o caso de quem está de férias:
Há férias de coração aberto e férias de coração fechado. E só se descansa bem nas primeiras. No egoísmo ninguém descansa. Só o bem descansa. O egoísmo pode aliviar mas não descansa; alivia mas não carrega as baterias.


P. Nuno Tovar de Lemos, sj
2. Que sorte podermos descansar com Jesus!
Jesus propôs aos apóstolos que se retirassem com Ele para descansar. Não disse “Vão”, disse “Venham”. Os apóstolos não foram sozinhos, foram no barco com Jesus. Se tivessem ido só eles teria sido certamente diferente. Connosco é parecido. Podemos ir de férias com Jesus ou sem Jesus. E as férias são diferentes num ou noutro caso.
Quando chega a hora de descansarmos, podemos ter também a tentação de deixar Deus de lado. Ir à Missa? “Não, agora vou descansar um pouco, estou em férias, Deus entende…” Ou seja: também em relação a Deus podemos ter – nas férias – um egoísmo auto-justificado. Como se Ele pertencesse ao mesmo dossier onde estão os assuntos do trabalho e o chefe stressado que só sabe exigir resultados… Como se Deus não descansasse nem convidasse a descansar.
Quem tira férias de Deus ainda não percebeu que sorte que é poder descansar Nele. Porque, ultimamente, a sede de descanso que nós temos só Ele pode satisfazer. “Criaste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não descansar em Ti”, escreveu Santo Agostinho no início das suas Confissões. Nós não temos só necessidade de uma boa praia, de um bom petisco, de um gin tonic, de uma noite quente de verão, por melhores que sejam todas estas coisas. Nós temos, acima de tudo, necessidade de Deus: de um amor incondicional, de uma segurança que não falhe, de uma palavra certa que nos liberte do cansaço de corrermos sem saber para onde, como “ovelhas sem pastor”…
Na prática, como é que se descansa com Jesus? Como é que se descansa em Deus? Indo à Missa ao Domingo? Sim mas não só. Descansamos em Deus reforçando a nossa amizade com Ele. Descansamos com Jesus através da rectidão da nossa intenção e da busca de tempos gratuitos com Ele. Isto é muito pessoal, não existem “fórmulas” universais; o que ajuda um não ajuda outro. Um passeio pela praia só com Ele? Uma carta que se Lhe escreve? Uma boa confissão? Um tempo de leitura espiritual? Um terço rezado com calma? Enfim, cada um saberá de que modos pode ter Jesus presente nas suas férias…
Uma coisa é certa, se somos seguidores de Jesus, Ele também nos diz como disse aos apóstolos: “Vem agora, vamos descansar um pouco”.
* Seguimos a narrativa de S. Marcos (Mc 6, 30 ss) mas o episódio é também na narrado em S. Lucas (Lc 9, 10 ss).  

Por P.e Nuno Tovar de Lemos
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

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