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"Amoris Laetitia"

O discurso de Bergoglio ficará como um dos mais emblemáticos do seu corajoso pontificado

O escritor António Alçada Baptista citava muitas vezes a opinião de Denis de Rougemont, que também era a dele, de que a crise do casamento começou quando os casamentos começaram a ser feitos por amor. Era uma blague, claro, mas também o princípio de uma reflexão séria sobre a complexa mutação em curso (alteração de mentalidades, de padrões sociais, de regimes de existência, etc.). Podemos sempre assentir, é verdade, e também a propósito do amor, que quem inventou o barco inventou o naufrágio. Ora, a tentação poderia ser simplesmente voltar atrás, procurando na restauração de um código ou de um modelo rígido a solução e substituindo o amor por um fundamento menos problemático. A situação de emergência que hoje se vive (só em Portugal, por exemplo, os números da Pordata indicam que no ano de 2013 houve 70,4 divórcios por cada 100 casamentos) parece dar-lhe razão. Graças a Deus, não é esse o entendimento do Papa Francisco. Na importante exortação que agora publica, o amor aparece não só no título mas vem nomeado mais de 300 vezes, tornando-se deliberadamente o centro da sua detalhada reflexão. A apresentação oficial do documento, na Sala de Imprensa do Vaticano, ficou a cargo do cardeal de Viena, o dominicano Christoph Schoenborn, que reforçou com frontalidade este aspeto: “O Papa Francisco crê no amor, na força atraente do amor, e por isso pode ser bastante desconfiado e crítico relativamente à atitude de quem quer regular tudo com normas. ‘Não’, diz o Papa, ‘isso não atrai; o que atrai é o amor’.” Dito isto, há que reconhecer que o discurso de Bergoglio é tudo menos redutor ou escapista, tendo aqui um dos momentos que ficará como um dos mais emblemáticos do seu corajoso pontificado.


De um texto invulgarmente extenso (são nove capítulos e mais de três centenas de parágrafos), o que já de si revela o extremo cuidado mas também a dificuldade que o tratamento destas questões impõe, atrevemo-nos a sublinhar três tópicos que se prendem com o método. Certamente que aquilo que o Papa diz é fundamental, e o documento está aí para que uma ampla receção aconteça, mas o modo como o diz marca também uma atitude e um programa.

1) Uma inovação metodológica do Concílio Vaticano II, sobretudo dessa magna carta do catolicismo contemporâneo chamada “Gaudium et Spes”, é a introdução de um discernimento da realidade a dois tempos, falando não só das sombras mas também das luzes que assinalam um progresso e uma positividade. Esta alteração passou a vigorar nos documentos magisteriais posteriores e corresponde a um esforço de leitura da vida na sua complexidade. Este esquema é mantido na “Amoris Laetitia”, mas dá-se um passo em frente: a Igreja, pela voz autorizada do Papa, promove não apenas uma análise crítica dos temas em debate mas desenvolve uma honestíssima autocrítica em relação ao seu próprio contributo histórico.

2) Uma chamada de atenção que tinha aparecido nos grupos de trabalho do sínodo, reconhecendo que o modo de pensar da Igreja é, muitas vezes, demasiado estático e tem pouco em conta a dimensão biográfica dos percursos crentes, é acolhida com audácia neste documento. Francisco escreve: “É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral.” E pede encarecidamente que nos lembremos de algo que ensina Tomás de Aquino, o teólogo mais citado em toda a Exortação: “Quanto mais se desce ao particular, mais aumenta a indeterminação.” A indeterminação não é, pois, um acidente, mas um componente da vida com que se deve contar.


3) O próprio documento é um ensaio de uma nova linguagem, privilegiando o modelo narrativo e a ligação à experiência, ao tecido do vivido, ao quotidiano, em vez de um discurso abstrato. Um sintoma curioso colhe-se nas citações que sondam uma antropologia enunciada não só doutrinalmente mas por poetas (são citados Jorge Luis Borges e Mario Benedetti), cineastas (é recuperado “O Festim de Babette”, de Gabriel Axel) ou líderes espirituais não católicos (Martin Luther King e Dietrich Bonhoeffer).

in http://www.imissio.net/v2/opiniao/amoris-laetitia:4375 

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