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Teologia do Corpo por Cristopher West

Parte I

Nas minhas conferências sobre a Teologia do Corpo de João Paulo II, as pessoas ficam geralmente espantadas com a beleza desta visão da vida humana, a ao mesmo tempo, pela sua incapacidade de a levar avante. Daí que uma das questões que mais frequentemente oiço seja “Como é que eu posso viver isto?”

Este é o dilema de quem encontra a doutrina de Cristo: por nós próprios, não temos o que é necessário para a cumprir. Como diz João Paulo II, “Amar e viver de acordo com os Evangelhos está para além das capacidades humanas. É possível somente como resultado de um dom de Deus que, pela Sua Graça, cura, restaura e transforma o coração humano”. Viver o Evangelho é então “uma possibilidade aberta apenas ao homem pela graça, pelo dom de Deus, pelo Seu amor.” (Veritatis Splendor, 23-24)

Na Teologia do Corpo, João Paulo II dá-nos um programa tripartido que nos permite abrirmo-nos a este amor divino, a esta graça: Oração, Eucaristia e Penitência. Estes, diz ele, são os meios “infalíveis e indispensáveis” para viver a verdade do amor que Deus inscreveu na teologia dos nossos corpos. (TOB 126:5)


De repente isto pode soar como “típica conversa de católicos” que já todos ouviram antes. E, na verdade até é! Mas a teologia esponsal de João Paulo II dá-nos uma perspectiva nova, mística, que provavelmente nunca ouviram antes.

Este artigo divide-se em três partes e na primeira vamos olhar brevemente para a natureza “esponsal” da oração. Depois olharemos para a Eucaristia e para a Penitência.

Como diz o Catecismo, “Toda a vida cristã tem a marca do amor esponsal entre Cristo e a Igreja.” (CIC 1617). Os Cristãos são chamados a viver por dentro este “grande mistério” do amor esponsal de Cristo. (ver Ef 5:31-31).“Esta relação viva e pessoal com o Deus vivo e verdadeiro... é a oração.” (CIC 2558).

A oração nunca deve ser reduzida a uma simples recitação de fórmulas. É um convite a uma intimidade profunda com Deus. A oração é onde nós “fazemos cair as nossas máscaras e voltamos o coração para o Senhor que nos ama de modo a entregarmo-nos a Ele como uma oferenda a purificar e transformar.” (CIC 2711). Devemos permitir-nos estar “nus” diante de Deus. Mascaras e folhas de figueira são a mesma coisa - uma forma de nos escondermos de Deus: “Tive medo porque estava nu e por isso escondi-me” (Gen 3:10). ). A oração é onde nós permitimos que o amor perfeito de Cristo afaste esse medo. (ver 1 Jo 4:18) Ficar nu diante do Divino Noivo, em oração, permite que Cristo purifique a sua Noiva (ver Ef 5:27) de modo a prepará-la para a “união nupcial”.

João Paulo II desenvolve a sua visão esponsal da oração no seu documento sobre o novo milénio: “A grande tradição mística da Igreja… mostra como a oração pode progredir, como um genuíno diálogo de amor, ao ponto de tornar a pessoa totalmente possuída pelo divino Amado, vibrando ao toque do Espírito, permanecendo como filho no coração do Pai.” E continua: “Isto é… algo totalmente sustentado pela graça, que solicita um compromisso espiritual intenso a que não é alheia uma dolorosa purificação. (a “Noite escura”). Mas leva, de várias formas possíveis, à inefável alegria experimentada e descrita pelos místicos como uma “união esponsal” (Novo Millenium 33). 

Aqui vemos João Paulo II inspirado por um dos seus mestres favoritos São João da Cruz. Segundo este místico, a oração leva-nos à entrega a Deus (e Ele a nós) semelhante ao abandono que se verifica nos esposos na união sexual. Como diz São João, “Tal como na união sexual há dois numa só carne … assim também quando é consumada a união espiritual entre Deus e a alma, há duas naturezas num só espírito e num só amor”. (Comentário ao Canto Espiritual)

Só na medida em que somos “um só espírito e um só amor” com Cristo, o Esposo, é que somos capazes de nos amar uns aos outros como Ele nos amou. É uma experiência que é dada aos que preservaram na oração Cristã. Então não tenhamos medo de preservar através das purificações dolorosas que nos levam a uma união nupcial com Deus. “Senhor ensina-nos a rezar”




Parte II

Viver a teologia dos nossos corpos significa reconhecer o plano de amor inscrito por Deus nos nossos corpos como homem mulher e viver de acordo com isso. É disto que trata a vida Cristã - amar como Cristo amou: “Este é o meu corpo entregue por vós”.

Há uma questão fundamental. Cristo pede-nos para fazer algo que não somos capazes de fazer. Nenhum ser humano com a sua própria força pode amar como Deus ama. É impossível. Só quando reconhecemos que não podemos seguir a lei de Deus por nós próprios é que estamos preparados para receber a Boa Nova do Evangelho. Numa palavra a “boa nova” chama-se Graça.

Graça é um dom misterioso de Deus que nos capacita para amar como Ele ama. Graça é o amor de Deus derramado sobre nós e dentro de nós. Só na medida em que o amor de Deus permanece em nós é que somos capazes de o partilhar com os outros. Por outras palavras, só na medida em que recebemos o amor de Deus é que somos capazes de cumprir a lei de Deus. Como dizia StºAgostinho, “ A Lei foi-nos dada para que a Graça fosse procurada; e a Graça foi-nos dada, para que a Lei fosse cumprida.” (De Spiritu et Littera) 

Isto são boas notícias! Que alívio saber que não depende de mim. Por muito que me esforçasse, simplesmente não consigo sozinho, não consigo cumprir a Lei de Deus (não admira que esteja sempre a cair…). Só a Graça de Deus consegue.

A questão então é, como é que recebo esta Graça? A resposta de João Paulo II é a oração e a frequência regular dos sacramentos da Penitência e Eucaristia. A teologia esponsal de João Paulo II dá-nos uma nova perspectiva mística destes 3 meios “infalíveis e indispensáveis” para viver a vida Cristã. Já vimos a natureza esponsal da oração e agora vamos rapidamente abordar a natureza esponsal da Eucaristia.

Receber a Eucaristia e vivê-la com fé é receber e viver tudo o que João Paulo II ensina na sua Teologia do Corpo. A Eucaristia, diz ele, é o “sacramento do noivo e da noiva”. Cristo instituiu a Eucaristia, continua João Paulo II, “para expressar a relação entre homem e mulher, entre o que é “feminino” e “masculino” (Mulieris dignitatem 26).

Que tesouro de verdade está aqui para ser descoberto! Na Eucaristia, Cristo o Esposo entrega o Seu corpo para a Sua noiva e nós, a Esposa recebemos o Seu corpo nos nossos corpos. Nesta mais sagrada e santa consumação de amor, a Esposa de Cristo é infundida, cheia, impregnada com toda a graça necessária para amar como Cristo ama. Aqui recebemos toda a força necessária para vencer os nossos pecados e fragilidades e tornarmo-nos os homens e mulheres que somos criados para ser. João Paulo II questiona: “Se ignorássemos a Eucaristia, como poderíamos ultrapassar a nossa deficiência?” (Ecclesia de Eucharistia 60).

A história seguinte sobre os meus sogros ilustra muito bem a ligação entre a comunhão dos Esposos e a Comunhão entre Cristo e a Igreja. Na Missa, no dia depois do seu casamento, o meu sogro estava banhado em lágrimas depois de receber a Eucaristia. Quando a sua noiva perguntou o que se passava, ele, pensando na consumação do seu amor na noite anterior, disse “Pela primeira vez na minha vida percebi o significado das palavras de Cristo, “Isto é o meu corpo entregue por vós.” 

Esclarecidas todas as dúvidas - este é o significado mais profundo do corpo humano e da união “numa só carne”. É tudo um grande “mistério” que se destina a apontar para a Comunhão entre Cristo e a Igreja (ver Ef 5:31-32). Os nossos corpos” entregues” uns pelos outros num amor esponsal verdadeiro destinam-se a testemunhar o corpo de Cristo “entregue” por nós na Eucaristia.



Parte III

Como vimos, viver a Teologia dos nossos corpos significa reconhecer o plano inscrito por Deus nos nossos corpos como homem e mulher e viver de acordo com ele.

O Cristianismo é a religião por excelência, da encarnação. Realidade espiritual última (Deus) manifestou-se na carne. “A Palavra fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1:14). Também nós somos chamados em Cristo a manifestar o amor de Deus na carne. De facto, o chamamento para amar como Deus ama, está impresso nos nossos corpos.

O corpo do homem não faz sentido por si só, nem o da mulher. Vistos à luz um do outro, descobrimos claramente o plano do Criador - homem e mulher são feitos para serem um dom fecundo um para o outro. “Sede fecundos e multiplicai-vos” é simplesmente um chamamento a viver à imagem de Deus, na qual somos feitos. “Por esta razão… os dois tornam-se uma só carne.” E por que razão? Para revelar, proclamar e participar no amor de Cristo e da Igreja (ver Ef 5:31-32). Tal amor chama-se casamento.

Claro que o casamento não é a única maneira de viver a “teologia dos nossos corpos”. Independentemente do nosso estado de vida somos todos chamados a amar como Deus ama. Os esposos fazem isto dum modo muito particular ao tornarem-se “uma só carne” e dedicando-se ao fruto natural do seu amor – os filhos. Homens e mulheres que vivem o celibato consagrado imitam Cristo dedicando-se inteiramente à família de Deus em todas as formas como fazem dom de si aos outros.

O denominador comum para todos nós é que, apesar das nossas mais sinceras intenções, falhamos de inúmeras maneiras a “amar como Cristo ama”. Isto significa que em todas as relações humanas, será necessária uma grande dose de misericórdia. Vejamos: cada um de nós é criado para o amor perfeito, mas nenhum de nós o recebe dos outros na nossa vida, e nenhum de nós é capaz de dar o amor perfeito aos outros. Isto deixa-nos feridos e com necessidade de misericórdia e cura.

Graças a Deus pelo Sacramento da Penitência! As riquezas deste sacramento são inesgotáveis. Infelizmente, muitos Católicos não foram ajudados a apreciar este sacramento para além da preparação que receberam no segundo ano da catequese. Tendemos a pensar que se não fizemos nada de “grande, mau e horrível” não há razão para ir confessar-se.

Como diz o Catecismo, “Sem ser estritamente necessária, a confissão das faltas quotidianas (pecados veniais) é contudo vivamente recomendada pela Igreja. Com efeito, a confissão regular dos nossos pecados veniais ajuda-nos a formar a nossa consciência, a lutar contra as más inclinações, a deixarmo-nos curar por Cristo, a progredir na vida do Espírito.” (CIC 1458).

Crescer na “vida do Espírito” não significa rejeitar os nossos corpos. Pelo contrário, significa abri-los à in-habitação do Espírito Santo para que o que fazemos com eles glorifique a Deus. Esta é a única forma de viver a teologia dos nossos corpos - abrindo-nos à “vida do Espírito”. Isto e a frequência regular do sacramento da Penitência (mesmo que não tenhamos pecado grave) é a forma “infalível e indispensável” de permanecermos abertos à vida do Espírito.

Se tivermos pecados graves devemos recorrer à confissão todas as semanas se for necessário. Para aqueles que, pela graça de Deus, não lutam regularmente com o pecado mortal nas suas vidas, muitos directores espirituais sábios aconselham a confissão pelo menos uma vez por mês.

Viver a teologia dos nossos corpos (isto é amar como Cristo ama) compromete-nos numa séria luta contra o pecado. Através deste Sacramento da Misericórdia não só nos reconciliamos com Deus pelo perdão dos nossos pecados, também recebemos um “acréscimo de forças espirituais para o combate cristão” (CIC 1496) Devemos reforçarmo-nos regularmente com esta força espiritual. Porque não ir à confissão rapidamente?


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