Ter um irmão é uma das maiores dádivas do mundo

Ter um irmão é uma das maiores dádivas do mundo, ser irmão é uma responsabilidade com o mundo. Aos que dizem que “ser filho único deve ser uma maravilha”, eu contraponho dizendo que ter um irmão é uma oportunidade única na vida.
Então, não a desperdicem! Irmãos aparecem na nossa vida antes ou depois de a termos conquistado e independentemente de quando o ganhamos, seja ele caçula ou primogénito, será sempre um presente encomendado de amizade potencial incomparável. Durante a vida, vamos construindo estradas e conhecendo novas pessoas com as quais podemos desenvolver alguma amizade, mas nessa estrada, ainda no início dela, já nos foram dados companheiros que a traçarão connosco, suportando quedas e distanciamentos, reaproximações e sofrimentos.
O amor fraterno é um dos mais sublimes, porque ele entende-se e sente-se no sangue, sangue que corre em todo o corpo, que passa pelo olhar e que ensopa o coração. Quando se é irmão, a história torna-se um eterno diálogo de dois olhares que presenciam os factos juntos, mesmo que de posições diferentes. Quando se é irmão, as tristezas familiares aparecem e só a memória fraterna é capaz de entender o sofrimento recíproco — porque viveram as suas histórias juntos e são capazes de combater o inimigo em uníssono. Quando se é irmão, mesmo que o crescimento leve a lugares distantes, a admiração e o sentimento permanecem imbatíveis. Isso verifica-se quando, por exemplo, nas festas de final de ano conversam como se ainda morassem na mesma casa, como nos velhos tempos. Quando se é irmão, e não simplesmente se tem um irmão, mostra-se ao mundo que ele ainda é capaz de fazer uma revolução.

Ser irmão pode, por isso, revolucionar o mundo. É o ponto máximo do amor compartilhado, de poder olhar para o outro e saber o que ele está a sentir — porque tu também estás. É saber o que ele pensa e o que gosta, porque ele também o sabe, é conhecer um amigo de olhos fechados e reconhecer a amizade de coração aberto. Identicamente, a dor fica mais fácil de carregar em duas ou mais costas fraternas, pois ser irmão é carregar a cruz juntos, quando o calvário aparecer, pois ele vai, tardando ou não. É também ser crucificado um do lado do outro, como símbolo da união que supera a carne. Ser irmão é, por fim, combater.
Um combate diário e conjunto às forças inúmeras que tentam extinguir os laços fraternos, uma luta que começa de manhã e que não cessa ou descansa com o pôr do Sol, nem sábado, nem domingo. O escudo da fraternidade é maior do que qualquer espada de adversidade, pois os objectivos de vencer são os mesmos, a luta é organizada e direccionada, então a vitória fica mais perto de se efectivar. E mesmo que ela não ocorra — porque é possível que neste mundo o mal vença o bem — quando no fim da vida, já noutro mundo, os irmãos se encontrarem, será num abraço que saberão que nada foi em vão, que nada foi vencido ou perdido, pois o combate que se trava com um amigo é o mesmo que se trava com um irmão.

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