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A família de diálogo e amor gratuito

Não se conhece bem a história, mas é possível, ao jeito de Santo Inácio, procurarmos compor a cena. Estamos no ano de 1939, em França, quando uma jovem leva o marido para se encontrar com o Pe. Henri Caffarel. Tinham um pedido, que era procurar aprofundar a santidade do seu matrimónio, a sua vida a dois mais perto de Deus. O Pe. Caffarel não se fez de rogado e respondeu «façamos o caminho juntos», e rapidamente se juntaram mais três casais, mesmo numa época em que o espectro da guerra começava a pairar sobre as suas cabeças.
Passou a guerra e o crescimento foi de tal forma que surpreendeu todos. Por todo o mundo, multiplicavam-se os casais que queriam aprofundar a sua espiritualidade conjugal. A procura da santidade começava a tomar forma e tem-se mantido até aos dias de hoje, onde podemos encontrar quase 150 mil pessoas, espalhadas por 92 países, que, reunidas em equipas, e seguindo a Carta que o Pe. Henri Caffarel escreveu, procuram fazer este caminho em conjunto. As Equipas de Nossa Senhora (ENS) tornaram-se, então, na fonte a que muitos casais vão beber para crescerem na sua caminhada conjugal.

«Na altura isto era uma inovação na Igreja, porque estava longe o Concílio Vaticano II e não se falava muito de santidade para os leigos, era diferente do que a Igreja apresentava, e não havia nada que ajudasse o casal a aprofundar a espiritualidade a dois e a aprofundar o sacramento do matrimónio», explica-nos Dora Isabel. Ela e João Pedro são “profissionais” das ENS, pois já pertencem a uma equipa há 23 anos. Uma vida dedicada a esta caminhada, e que lhes trouxe tantos frutos. «Quando fomos para as ENS, sentimos a necessidade de ter amigos à nossa volta com esta caminhada. Quando casámos não tínhamos uma grande vivência espiritual, e constatámos que os amigos que tínhamos à nossa volta eram muito desligados da Igreja, e quando percebemos que queríamos outra visão para a nossa vida, vimos que não tínhamos amigos com esse registo. E foi aí que nos falaram das ENS, e achámos mesmo que era isto.» E foi.

A entrada nas ENS pressupõe um período de pilotagem, para que os casais das equipas, que são normalmente formadas por cinco a sete casais e um assistente espiritual, possam perceber se é isto que querem para a sua caminhada familiar. No final, assumem o compromisso, se assim o entenderem. No caso da Dora e do João, o início nas ENS até foi bastante conturbado. «A equipa onde iniciámos, no final da pilotagem, houve vários problemas e a equipa acabou por se desmembrar, saímos porque estávamos desiludidos com algumas coisas», recorda Dora.

No entanto, e apesar da má experiência, o casal sentiu «muita falta do que lá tínhamos aprendido». «O amor que sentimos um pelo outro é muito humano, mas este amor é limitado e ao descobrirmos o amor de Deus na nossa vida percebemos que somos muito mercantilistas e que o amor de Deus é totalmente gratuito. Ele deu a vida por nós, e pede-nos que consigamos viver com a nossa família dessa forma gratuita», explica Dora Isabel.

É este tipo de sentimento que encontramos em Diana e José Frazão, embora em estado bastante mais embrionário. O casal terminou a pilotagem há dois meses, e assumiu o compromisso de se manterem nas equipas. «Vimos nas ENS uma oportunidade para fortalecer o amor conjugal e a procura da santidade dentro do casamento. O que encontrámos foi o que procurávamos, por isso é que nos mantivemos no final da pilotagem e assumimos o compromisso», conta Diana Frazão.

Os encontros nas ENS são mensais, em esquema rotativo em casa de um dos casais membros da equipa. «O Pe. Caffarel implementou logo o hábito de que todas as reuniões se iniciassem com uma refeição, para melhorar a partilha e criar ambiente. Começa com uma refeição, depois vários momentos de partilha, oração e um momento que é o estudo do tema. Recebemos em cada ano um livro com os temas que temos de estudar nesse ano, que são os mesmos em todo o mundo. Em cada mês os casais são convidados a ler e tratar o tema, para que na reunião, quando se chegar ao debate do tema, todos tenham ideias a apresentar», explica João Pedro.




A presença do assistente espiritual é também uma parte importante, pois as equipas surgiram precisamente desse pedido de um casal a um sacerdote para que o acompanhasse. Há dez anos que o Pe. Nuno Amador, de Lisboa, acompanha duas equipas de casais, e a experiência tem sido muito «enriquecedora». «É muito enriquecedor até para a nossa vida sacerdotal», reconhece o Pe. Nuno, que fala de algumas das dificuldades que os casais vão enfrentando. «Percebemos algumas das dificuldades, mas outras ficam no interior do que é a vida conjugal. Há um desafio da unidade, de gestão de horários e tempos. A dispersão que vivemos hoje e a dificuldade de estarem juntos não facilitam tudo. Depois, as redes familiares também se encurtam mais. Nas equipas que acompanho há casais com boas redes familiares. E também as equipas podem servir para se expandir aqui para este lado, pois [os casais] apoiam-se uns aos outros. Já aconteceu haver casais que ficam a tomar conta dos filhos dos outros», conta.

Neste momento, as ENS apenas estão abertas a casais em situação regular. Uma regra que «faz sentido» ao Pe. Nuno Amador, embora não descarte alguma «reflexão sobre o assunto». «Nesta fase não faz sentido mudar. Há aqui um ritmo de vida dos casais com quem estamos... Mas é algo que precisa de ser amadurecido, não tenho isso muito claro nem sei se as equipas alguma vez pensaram nisso. Se há casais que precisam dessa ajuda, e que podia ser uma ajuda para eles estar com outras pessoas… A dificuldade maior é que esses casais não seriam propriamente considerados casais», explica, embora admita que «tudo tem de ser visto caso a caso».

A quem nada conhece, Diana e José deixam o desafio de pertencer a um movimento que traz frutos logo no «curto prazo». «Recomendamos vivamente porque traz muitos frutos, mesmo a curto prazo. Guardar um tempo para falar mensalmente traz frutos logo a curto prazo, e as equipas preocupam-se com ajudar a aumentar o amor humano entre os esposos, e isso já não se vê muito. Tem-nos ajudado muito nestes dois anos, vamos esperar que daqui a dez anos achemos o mesmo [risos]», conclui este casal.

FAMÍLIA CRISTÃ
Reportagem e fotos: Ricardo Perna

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