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O soldado perfeito - A força da não-violência (A propósito do soldado Desmond Doss 1919-2006)

Após cerca de três mil anos de busca da promoção antropopoiética da dignidade humana ocorrida no espaço geográfico e cultural a que nos habituámos a designar como «ocidente»
– é uma designação como outra qualquer –, em que, desde a definição-definitiva do sentido do absoluto da mortalidade humana e da sua mesma grandeza como «coisa espiritual» e apenas capaz de perenidade por meio do espírito; após a definição, também definitiva, da grandeza relativa do humano e do divino, com Job; após o trabalho de libertação das cadeias do destino, obra de Ésquilo e de Sófocles; após a humanização do divino e divinização do humano, consubstanciada na figura de Cristo, nunca como hoje se esteve tão longe de uma realização plena do melhor que o ser humano em si possui.
Estultamente cumprindo as profecias de Nietzsche, a humanidade contemporânea vive o momento do advento da sua morte: por aniquilação, por substituição pelas máquinas – perceba-se a trágica metáfora de Artificial intelligence, de Spielberg –, por queda definitiva numa bestialidade incarnada em tiranos e seus escravos.
Perdido o sentido do absoluto, sem mais, (“morto Deus”, talvez para ser substituído por qualquer infecundo misturador de factos), incapaz de criar, a cultura, imediatamente, entra em processo de caotização, nisso que se costuma chamar «relativismo»: tudo parece ser relativo e este é o novo absoluto. Todavia, nada mais lhe resta do que ser o absoluto do caos. Foi deste absoluto que a cultura helénica partiu para, precisamente, pensar o movimento que ergue o mundo, a fim de permitir uma existência, humana e trans-humana – natural, divina – passível de ser e de durar.

Não há violência no amor. Nenhum ato de violência transporta consigo amor. A violência não pode senão destruir. O amor constrói. O amor constrói não de forma mágica – ou amar seria fácil –, mas sempre através da mediação do ato de bem que carreia em benefício de alguém ou de algo

Não se confunda tal com «civilização»: é muito mais do que isso; é o ato de sentido em que o ser humano se constrói e constrói, consigo, o restante do que é, como sentido, também como sentido. Neste ato, não há separação, senão na forma da diferença semântica que possibilita o diverso da inconfundível identidade, entre o ser humano e o mundo: diferentes, mas sempre em concomitância.
Percebe-se, assim, melhor o próprio sentido evolutivo da criação genesíaca de um mundo que está apenas completo quando pode contar com o seu dador intrínseco de sentido, o ser humano.
Compreende-se, também, assim, melhor a razão pela qual a saída do ser humano do centro de sentido do mundo corresponde a uma ferida dificilmente sarável na relação entre mundo e Homem. Uma solução de continuidade que, se bem que não sendo absoluta, necessita de algo de mais poderoso do que a violência do instrumento do corte.
Este algo mais poderoso do que a violência do corte ontológico entre o ser humano e o mundo, entre o ser humano e o mundo como dom de possível plenitude, entre o ser humano e o absoluto de integridade do ser – isso a que se chama Deus – é o amor.
Não há violência no amor. Nenhum ato de violência transporta consigo amor. A violência não pode senão destruir. O amor constrói. O amor constrói não de forma mágica – ou amar seria fácil –, mas sempre através da mediação do ato de bem que carreia em benefício de alguém ou de algo (razão pela qual para com Deus apenas o louvor é um ato de amor do ser humano, pois Deus de nada precisa).

Na ilha de Okinawa, na terrível batalha conhecida como Hacksaw Ridge, conseguiu salvar cerca de setenta e cinco camaradas feridos bem como alguns soldados inimigos. A maior parte das vidas salvas foram-no sozinho, em parte do tempo debaixo de intenso fogo de artilharia

Ora, a forma mais elevada e nobre do louvor de Deus não consiste em queimar perfumes, mas em perfumar a ação humana com a fragrância que emana dos atos de amor. O mais é ilusão ou vaidade, inútil para o Homem, blasfema para com Deus.
Foi isto que o Soldado Desmond Doss (1919-2006) realizou de uma forma que tange os limites da possibilidade humana de amar, isto é, de realizar o bem.
Tendo estado prestes a matar o irmão, em pequeno, com um ato de violência, resolveu nunca matar voluntariamente – involuntariamente, não é possível querer ou não querer. No entanto, com a entrada dos EUA na Segunda Grande Guerra, não querendo que outros fossem morrer pelo seu bem na sua vez, alistou-se no exército com o fim de servir – ato de liturgia – como socorrista militar.
Com estatuto de «objetor de consciência», recusou-se a sequer tocar numa arma. Considerado cobarde e possível risco em campo de batalha, foi brutalmente mal-tratado pelas chefias e pelos camaradas. Com a intervenção hierárquica superior, repondo a justiça da situação, conseguiu terminar a sua recruta como socorrista e foi enviado para o teatro de operações do Pacífico, na guerra contra o Império do Japão.
Na ilha de Okinawa, na terrível batalha conhecida como Hacksaw Ridge, conseguiu salvar cerca de setenta e cinco camaradas feridos bem como alguns soldados inimigos. A maior parte das vidas salvas foram-no sozinho, em parte do tempo debaixo de intenso fogo de artilharia naval “amiga” e de fogo japonês.

São atos aparentemente trans-humanos, mas verdadeiramente reveladores da grandeza da capacidade humana, que podem permitir à humanidade sobreviver e, sobrevivendo, viver como algo de humanamente digno, não como coisa degenerada

Revelou uma força física e anímica singular, inacreditável se não fosse histórica; a sua coragem excedeu qualquer padrão de normalidade. O seu sentido de entrega ao bem dos outros seres humanos, «amigos» e «inimigos» manifesta a força do seu amor.
A sua ação não ficou por aqui, mas basta o que foi já dito para que se perceba que é este o ponto mais alto, quer dizer, este e todos os que com este se comparam, da humanidade, não qualquer ato que possa ser mais bem feito por uma máquina.
Note-se que uma qualquer máquina que venha a desempenhar uma qualquer ação similar à de Desmond Doss apenas o fará porque, imediata ou mediatamente, foi para tal programada por um ser humano.
No filme de Spielberg acima invocado, a máquina David transforma-se em algo de humano porque realiza o programa com que foi dotado, um programa que replicava a capacidade humana de amar. Ao mesmo tempo, a humanidade que tinha dado origem a tal programa desaparecia, aparentemente autoaniquilada pela sua própria estupidez.
São atos aparentemente trans-humanos, mas verdadeiramente reveladores da grandeza da capacidade humana, que podem permitir à humanidade sobreviver e, sobrevivendo, viver como algo de humanamente digno, não como coisa degenerada.
A violência, desumana e própria apenas das bestas, será a morte da humanidade, se esta persistir em fazer dela o seu ato de cada dia.
Doss, o não-violento, como não-violento, representa o caminho da força capaz de fazer do ato de cada ser humano um ato de digna humanidade.
Compete-nos a nós, a cada momento, decidir como queremos definir-nos antropologicamente, se como atos humanamente indignos ou humanamente dignos.
Repetimos, não é fácil amar.
A dignidade não é fácil.
Ser-se humano não é fácil.
Mas é bom e belo.

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Fotograma de "O herói de Hacksaw Ridge" (Mel Gibson)
Publicado em 02.03.2018

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