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“Sou um ateu especial”. O que Ricardo Araújo Pereira disse aos católicos

“Não sei se me vão expulsar do clube dos ateus por dizer isto, mas eu vejo uma função evidente e benigna na religião... desde que não exagere”. Em entrevista à Renascença, o humorista, que participou no Faith's Night Out este sábado, explica porquê.

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A formação em instituições católicas “que nunca quiseram forçar uma conversão” deu-lhe a capacidade de estabelecer pontes. Define-se como “um ateu que não vacila”, mas gosta do diálogo. Convidaram-no para ir ao “Faiths’s Night Out” – uma espécie de TED Talks sobre fé – dizer o que o mundo espera dos crentes e Ricardo Araújo Pereira admite que terá “expectativas mais elevadas do que o resto das pessoas”, precisamente por identificar valores comuns. O evento acontece este sábado, às 19h00, no Centro de Congresso de Lisboa.

O que é que faz um não crente num evento sobre fé?
É uma boa pergunta. Eu fico sempre surpreendido quando me convidam para eventos destes. Não é a primeira vez. Uma vez, o padre Tolentino [Mendonça], que é, aliás, o padre que me casou, convidou-me para uma coisa mais ou menos parecida na capela do Rato e é sempre bizarro haver um ateu que está lá no meio.


Para mim foi divertido e dois ou três crentes que lá estavam pediram a palavra para dizer que havia pontes entre um ateu como eu e crentes como eles. E no fim de tudo houve um outro senhor que pediu a palavra e disse: "meus amigos, uma coisa é nós levarmos a palavra do Senhor a quem não a conhece. Agora, este rapaz leu a Bíblia e mesmo assim não acredita, não há salvação nenhuma para este". E gerou-se um certo tumulto, porque ele quebrou aquela paz, mas eu acho que o homem tinha razão. Realmente, não há salvação para mim.

Aproprio-me do título da apresentação que fará no evento para lhe perguntar: o que é que o mundo espera dos crentes?
O título foram eles que escolheram para mim e é curioso. Se calhar vou falar disso lá, porque não sei exactamente o que é que o mundo espera dos crentes, eu não sou ninguém para falar pelo mundo. É curioso que eles me identifiquem a mim com o mundo, como se a religião estivesse fora do mundo. E em certa medida está um pouco.
Mas eu sou um "mundo" muito especial, vá. Porque, sendo ateu, fiz a primária numa escola de freiras vicentinas, fiz o liceu até ao 9.º ano numa escola de padres franciscanos, depois estive com padres jesuítas até ao 12.º e depois fiz a Universidade Católica. Eu sou um ateu especial, no sentido em que tenho muitas relações com a Igreja e com este Deus.

E nessa posição, o que espera dos crentes?
Aquilo que eu espero... Como eu tive muito contacto com crentes, se calhar tenho expectativas mais elevadas do que o resto das pessoas. E devo dizer que até hoje não foram defraudadas. Na esmagadora maioria dos casos, os crentes - sobretudo os padres e as freiras com quem convivi - deixaram-me as melhores recordações.

Por ser um ateu que é figura pública e por falar abertamente sobre esta temática, o Ricardo acabou por tornar-se um símbolo, de certa forma, do ateu que tem uma atitude dialogante com os crentes. Como se vê neste papel?

É bom. O ateísmo não é um clube. Cada pessoa é ateia à sua maneira, não há regras. É engraçado que sempre que é preciso um ateu para um encontro destes é o meu telefone que as pessoas discam. Mas eu não me importo com isso, não há problema.
Eu acho que tem a ver com esse tal passado, com o facto de eu ter passado a vida a fazer esse diálogo. E devo dizer que foi um diálogo sempre sem nenhuma obrigação. As minhas professoras, as irmãs vicentinas, os padres franciscanos e jesuítas nunca quiseram forçar uma conversão. Há duas perspectivas sobre isso: uma é que eu fui educado num ambiente de total liberdade; a outra é que eles próprios pensaram "não há salvação para este rapaz, é melhor não estarmos a gastar sacramentos com uma pessoa destas". Eu acho que foi a primeira. [risos]
Eu sou um ateu que não vacila. O facto de eu entabular esse diálogo com frequência não significa que tenha alguma reserva relativamente ao meu ateísmo, não se trata disso. Eu nem sequer sou agnóstico, sou mesmo ateu. Isso não significa que o diálogo não seja possível. Talvez seja uma questão de formação.
Sei que há ateus que têm outra perspectiva. Por exemplo, o Christopher Hitchens, que ficou muito conhecido numa espécie de ressurgimento do movimento ateísta e que escreveu um livro que se chama "Deus Não É Grande", cujo subtítulo é "como a religião envenena tudo". Eu não sou capaz de subscrever o subtítulo. Acho que a religião envenena muitas coisas, como, aliás, várias coisas bem-intencionadas são capazes de envenenar, mas não diria que envenena tudo. Pelo contrário, tenho boas razões para acreditar que os crentes – pelo menos os crentes com quem eu tenho contactado – têm uma espécie de compulsão para a bondade que eu acho admirável. Isso não quer dizer que não haja crentes também horrorosos.

O facto de vivermos tempos tão conturbados, em que vemos ressurgir em força discursos xenófobos, nacionalistas, radicais, ajuda a que haja uma aproximação entre quem partilha valores semelhantes, mesmo que não partilhe a fé?

É possível. É curioso... De facto, acho que com boa parte dos crentes há valores comuns aos meus e é possível, sim, que hoje isso seja significativo, tendo em conta a conjuntura. Se calhar o que eu devo dizer lá tem a ver com isso: para mim – que sou do mundo, que não sou de outro plano – o que o mundo espera dos crentes é que existam, mas não exagerem.

Como assim?

Não sei se me vão expulsar do clube dos ateus por dizer isto, mas eu vejo uma função evidente e benigna na religião... Desde que não exagere. Eu ainda não fui ver o "Silêncio" [filme de Martin Scorsese], mas li o livro do [Shuzaku] Endo e é muito impressionante deste ponto de vista de existir mas não exagerar.

O livro conta a história de um missionário português que vai para o Japão e chegam notícias a Portugal de que ele apostatou, ou seja, renunciou à fé. Então um seu antigo aluno vai ter com ele para perceber o que aconteceu. E o que está a acontecer é que o Japão acha que o cristianismo não se adapta à maneira de ser japonesa e está a tentar repelir a entrada do cristianismo lá. Todas as pessoas que se desconfiam que sejam cristãs são obrigadas a demonstrar que não o são fazendo provas disso – pisando uma imagem de Jesus Cristo ou algo assim. Alguns não são capazes de o fazer e são submetidos a uma tortura até à morte – são presos a umas estacas e espera-se que a maré suba para os matar.
É difícil entender aquilo, que esse envolvimento com a religião faça com que uma pessoa não seja capaz até de proteger a própria vida. Há várias maneiras de interpretar aquele momento e acho que esta é aliás bastante redutora, mas lembro-me de isso me impressionar quando li o livro.

Agora, devo dizer-lhe que, por todas as pessoas com quem eu contactei – os padres que me ensinaram a ler e a escrever, as freiras – tenho muita admiração. Precisamente por essa razão: pessoas que abdicam uma vida inteira, dedicam a vida inteira a uma ideia que não têm maneira de saber se é verdadeira ou não. Aí estamos de acordo, crentes e não crentes, porque senão não se falava de "fé". Chama-se "fé" porque implica acreditar. Eu tenho a certeza que a minha camisa é branca, não tenho fé que a minha camisa é branca. A fé é outra coisa. O facto de haver pessoas que são capazes de sacrificar a sua vida em nome de uma ideia – que eles consideram elevada e eu também considero –, acho isso admirável.

O “factor Papa Francisco” ajuda-o a sentir-se mais próximo?

Acho que ajuda, na maior parte das vezes. Já houve declarações do Papa Francisco que me deixaram um pouco inquieto, mas admito que na maior parte das vezes tem revelado uma abertura que me agrada.

O Faith’s Night Out quer ser um espaço onde se possa falar abertamente sobre fé. Acha que é difícil para um jovem, hoje, ser levado a sério se assumir a sua fé?

Se calhar essa não é uma pergunta para mim, porque aconteceu-me o contrário. Sou um não crente que esteve rodeado de crentes durante a vida toda. Não sei exactamente se hoje um miúdo na escola, que é crente, está rodeado de não crentes – não sei se é assim.

Sempre que alguém tenta prever que a fé desaparece, parece-me que está a errar. É possível que esmoreça um pouco e acho que isso é capaz de não ser mau, dado o meu lema "existam mas não exagerem". A vida faz-se de choques e um dos choques é esse: entre o mundo secular ou civil e os crentes. Provavelmente tem de haver cedências e dessas cedências faz-se qualquer coisa proveitosa.

Por exemplo, às vezes ponho-me a pensar o que é que sentem os padres do colégio São João de Brito, que são jesuítas, quando passam no Marquês de Pombal. Está ali uma estátua na principal praça de Lisboa de homenagem – [se bem que] a homenagem é por outras razões – a um senhor que tentou dizimá-los. É importante não esquecer que também já foi assim.


Acho que é bom vivermos numa altura em que eu posso ser não crente e não ser incomodado por isso e as pessoas que são crentes podem sê-lo sem serem incomodadas por isso. É o mundo em que eu gosto de viver.

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