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Meteorologia

Se há coisa que aprendemos depressa é esta: todos queremos, precisamos, desesperamos por ser felizes. Mas cada um é feliz à sua maneira. Dentro da semelhança aloja-se, portanto, esta inultrapassável variação que torna a vida (ainda mais) complexa e fascinante. Por exemplo, uma das minhas amigas mais antigas adora a chuva e o frio. Eu, por mim, prefiro de longe o calor e o sol. A princípio nem percebia bem as lamentações dela quando a primavera se enrobustecia e tudo decididamente se ilumina. Com os anos habituei-me ao mau humor dela em relação ao verão, aos adjetivos resmungados contra as rotinas estivais, ao completo rancor com que ela olha a meteorologia desses meses seguidos que fazem a felicidade de tantos.
Mas habituei-me também à alegria dela sempre que chove, às desculpas que engendra para desdramatizar os inverniços, à sua disposição de repente ensolarada só porque, em vez de sol, a manhã traz doses massivas de nevoeiro, geada e frio. Claro que o espanto persiste e ainda dou comigo a pensar perante uma tarde ensopada de água e de vento: “Como é que se pode gostar tanto disto?”, mas já não tento convencê-la, nem a contrario. Quando não consigo acompanhar o seu entusiasmo, deixo-me ficar calado a refletir nele, como uma hipótese curiosa em que não tinha pensado. Quem gosta do inverno ama os dias breves, a apagarem-se progressivamente. E esta minha amiga repete que os dias longos do verão são excêntricos e desregulados. Os dias certos são estes que se vão instalar para a semana, com a hora de inverno. Em Portugal sente-se um bocado a diferença, mas noutras geografias o choque é bem maior.

Lembro-me de quando vivia em Itália e começava a escurecer às quatro da tarde. Nos primeiros dias ficava completamente transido. O tempo parecia rasgado e em falta, com o seu quê de hostil. A habituação não era fácil. Para não falar já das peculiaridades ainda mais exigentes dos países do norte. Mas até disso nos aprendemos a rir. O relativismo não tem só coisas más. Ruy Belo, num daqueles poemas que nos descrevem dos pés à cabeça, deixou escrito: “É triste no outono concluir que era o verão a única estação.” Ora, para desmantelarmos o peso da tristeza que nos sequestra, é importante reconciliarmo-nos com as estações que nos são menos naturais. A vida hoje afastou-nos da natureza: as paisagens urbanas, com as suas florestas de vidro e betão, encerram a nossa existência entre paredes eficazes, que podem até ser muito cómodas. Mas o ar que respiramos, por alguma razão se chama “ar condicionado”. E vivemos de uma forma tão superprotegida que basta um aguaceiro ou um pé de vento para nos transtornar.
Lembro-me muitas vezes do chamado “Cântico das Criaturas”, composto por São Francisco de Assis, e que é consensualmente considerado o texto poético mais antigo da literatura italiana (datado de um período em torno a 1224-1226). São Francisco finaliza o poema já enfermo, na iminência da morte, quando praticamente havia deixado de ver. Esta sua situação de enorme vulnerabilidade não lhe retira a paz, pelo contrário: só adensa a espantosa sabedoria que os seus versos refletem. O poema é um dos grandes textos do cânone ocidental e desenha-se como uma oração de louvor ao “Altíssimo, omnipotente, bom Senhor”, a quem se faz chegar o integral louvor das suas criaturas, sem distinção. E estão lá todos os que, de uma forma ou de outra, se derramam sobre nós em cada estação: o “irmão Sol”, a “irmã Lua”, o “irmão Vento”, a “irmã Água”, o “irmão Fogo”, a “mãe Terra”, a “nossa irmã Morte”.


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