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Quando ser mãe muda o coração

Quando era jovem, comecei a trabalhar como redatora de "crónica negra". Era um trabalho duro andar entre hospitais, morgues, periferias onde ao amanhecer um traficante fora morto. Tinha pouco mais de 20 anos e todavia movia-me tranquilamente entre aquela morte, atenta a observar escrupulosamente os detalhes que deveria referir.
Um homem morto num passeio não me impressionava excessivamente, nem sequer o coração se me apertava por piedade. Tinham-me ensinado que um cronista deve ser distante e narrar, como a objetiva de uma máquina fotográfica. Eu, diligente, obedecia. Anos depois comecei a ser enviada. Continuava a ver a morte, simplesmente ia para mais longe. Continuava a observar, distante. Depois, deve ter-me acontecido algo.
De repente, diante de um homem assassinado, achei-me atingida por uma estranha pena: já não era a objetiva de uma máquina, mas uma dor desconhecida arpoava-me. O que é que me terá acontecido, perguntava-me. Algo de novo se tinha introduzido entre mim e a realidade: como quando, ao ouvir rádio, se sobrepõe uma interferência ao som.
Levei algum tempo a compreender. Foi apenas um instante, uma fração de segundo, e recordo-me, inclusive, o local exato onde estava, em casa, com o primeiro filho recém-nascido nos braços. Enquanto o embalava disse a mim própria, com repentina surpresa: pensa, todos, todos os homens, mesmo os piores, e os mercenários, e os criminosos, e os ditadores e os escravos, todos foram idênticos, durante algum tempo, a este meu filho, que trago entre os braços. Este pensamento, aparentemente banal, marcou-me, ficou-me gravado, era como se me tivesse sido aplicado um estigma invisível.
Desde então nenhuma das vítimas de violência que vi ou de quem li me foi estranha. Diante dos náufragos do Mediterrâneo, aos cristãos perseguidos, ao rapazinho humilhado pelos maus-tratos, repetia-se aquela interferência, como uma laceração dolorosa: pensar que também essa pessoa não era só um homem, mas um filho.
E quando leio histórias particularmente cruéis, de rapazinhos afegãos em viagem pelo Ocidente escondidos entre as engrenagens de um camião TIR, de jovens de 13 anos que desembarcam sozinhos, lançados à aventura, de crianças prostitutas, a interferência torna-se cada vez mais insistente e quase ensurdecedora: todos, todos estes jovens são filhos.
Devo dizer que o pensamento é às vezes tão cortante que gostaria de o poder extinguir, como se roda o botão do rádio. Mas a marca foi imprimida naquele dia, com o Pedro entre os braços, e não se pode eliminar. Quanto profundamente a maternidade entra nas entranhas e muda o coração. Só te resta um dom: reconhecer no outro, mesmo estranho, a comunhão com alguém que te é muito querido.

M. Corradi 
In "Avvenire" ; Trad.: Rui Jorge Martins 
Publicado em #BeginDate format:Ge1 01.09.2016

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