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Sínodo: Consensos difíceis, alguns acordos e críticas à falta de abordagem de temas relevantes sobre a família

Encontra-se em processo de análise a versão final do relatório do Sínodo, que será entregue ao Papa.
© DR
O acesso dos divorciados recasados à Comunhão, a preparação para o matrimónio e a necessidade de alterações de linguagem dominaram as conferências de imprensa da última semana do Sínodo, bem como os 13 relatórios apresentados.
No que diz respeito aos divorciados recasados, as opiniões dividem-se. São várias as referências que insistem na manutenção da “actual disciplina”, admitindo que os católicos devem “abster-se” da Comunhão. No entanto, muitos frisam a necessidade de um acompanhamento dos casais que vivem em situações irregulares. Já a importância de se aprofundar a preparação matrimonial é matéria unânime entre os grupos de trabalho. Numa óptica de balçanço do Sínodo, diversos bispos lamentam a falta de tempo para abordar temas relevantes relacionados com a família.

Os relatórios dos diferentes grupos linguísticos foram divulgados, após terminados os trabalhos dos Círculos Menores. Decorre agora o processo de análise da proposta de relatório final, baseada nas cerca de 800 sugestões que resultaram das três semanas de trabalhos de grupo, elaborada por uma comissão nomeada pelo Papa.
Votações feitas e alterações concluídas, Sábado - após uma votação parágrafo a parágrafo - sairá a versão final. O documento resultante vai ser entregue ao Papa Francisco que poderá redigir uma Exortação Apostólica ou aceitar o documento como definitivo. Vários bispos são apologistas da intervenção do Santo Padre por forma a resumir e completar o processo.

O culminar das discussões
Tendo em conta a disparidade de opiniões no que respeita ao acesso aos sacramentos por parte dos divorciados recasados, a sugestão que reúne mais consenso passa pela criação de uma “comissão” que avalie com “maior precisão teológica” esta questão. Um dos grupos apontou a falta de “entusiasmo” com que foi recebida a proposta da “via penitencial” para os recasados. A crítica às “formas de exclusão litúrgica, educativa e pastoral” mereceu registo num dos relatórios.
O primeiro dos dois grupos de língua portuguesa e castelhana apontou, também, a necessidade de se ouvir “o grito de tantas pessoas que sofrem e gritam, pedindo para participar o mais plenamente possível na vida da Igreja”.
Na conferência de imprensa após o lançamento dos relatórios, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique, defendeu ser necessário acompanhar os divorciados para que sintam que pertencem à Igreja, pois esta atitude não vai de encontro à “destruição da indissolubilidade do casamento" nem ao desejo de casar, podendo mesmo caminhar para esse sentido. O cardeal Sturla Berhouet, arcebispo de Montevideu, corroborou a ideia de acompanhamento destas situações que são “muitas vezes carregadas de dor”. 
Algo comum a todos os relatórios é a necessidade de se apostar numa preparação para o casamento, começando pela catequese e pastoral juvenil e continuando durante o próprio Matrimónio.

A caminho do documento final
Alguns bispos lamentam a falta de tempo para abordar assuntos importantes para as famílias e esperam ver essas preocupações referidas no documento final. Procriação e abertura à vida, pobreza, habitação e trabalho, imigração, papel dos pais e educação, atenção aos mais frágeis e doentes, abandono dos idosos, violência doméstica, sem-abrigo e legislações sobre a família são os temas que os bispos consideram terem sido pouco falados.
Na conferência de imprensa de ontem, o arcebispo José Gomez, de Los Angeles, expressou a sua preocupação sobre o tema da imigração: “Pessoalmente, gostaria que tivéssemos tido mais tempo para falar de certos assuntos. Por exemplo, a questão da imigração. Temos 11 milhões de pessoas sem documentos nos Estados Unidos. Mais de dois milhões de pessoas foram deportadas nos últimos anos e uma em cada quatro dessas pessoas fazia parte de uma família unida, por isso a emigração é um assunto importante para nós”.
Acerca do documento final, o cardeal Oswald Gracias, de Bombaím, membro integrante da comissão e também presente no briefing desta Quinta-feira, recordou que a missão do Sínodo é aconselhar o Papa. Como tal, aquilo que será entregue ao Papa tratam-se de "orientações gerais", que "não entram em grande detalhe". "Temos tido sempre em conta que este Sínodo não está a fazer doutrina, mas está à procura de uma abordagem pastoral, das melhores linhas orientadoras", acrescentou.
O cardeal explicou também que ainda não chegaram às soluções, mas que "pelo menos" começaram a "falar do problema" e mostrou-se confiante na busca do caminho certo, salientando que "a teologia progride embora a doutrina se mantenha".
Esta Quinta-feira, ao inaugurar a reunião geral do Sínodo dos bispos, o Papa Francisco anunciou a criação de uma nova congregação da Cúria Romana para as àreas da família, leigos e vida, o que irá dar mais relevo à área da família na Igreja Católica.
Será uma comissão de estudos a determinar esta nova estrutura, que compila o actual Conselho Pontifício para a Família, o Conselho Pontifício para os Leigos e a Academia Pontifícia para a Vida. A proposta de alteração data de Setembro e tinha sido apresentada pelo conselho consultivo de cardeais.

Em direcção aos resultados: os trabalhos da última semana do Sínodo
O patriarca de Jerusalém, Fouad Twal, afirmou que o acesso à comunhão por parte de pessoas “em situação irregular” não dominou o Sínodo, apesar de estar na ordem do dia fora dele. Twal chegou mesmo a recordar que em algumas zonas do Médio Oriente não existe sequer casamento civil, pelo que o problema não chega sequer a ser colocado.
“Muitos dos desafios que existem no Médio Oriente não existem noutras partes do mundo e vice-versa. Temos muitos problemas, como é óbvio, mas não esses. No nosso Círculo falámos de muitas coisas, não apenas sobre a questão dos divorciados, mas também de temas como as famílias migrantes e as vítimas de violência”, sublinhou.
O patriarca elogiou ainda o clima do Sínodo, salientando que é “normal” que os bispos não estejam sempre de acordo. “Claro que há coisas sobre as quais concordamos em absoluto, como na misericórdia sem esquecer a doutrina. Estamos aqui todos pelo mesmo, pela família”, concluiu.
Twal admitiu que será impossível dar resposta a todos os problemas levantados no sínodo, existindo até alguns a carecer de intervenção dos governos civis.
D. Enrico Solmi, bispo de Parma, disse aos jornalistas que espera que este Sínodo não seja “cosmético”, mas saiba, sim, “incidir sobre a vida da Igreja, devolvendo à família o seu devido lugar”.
Já Mark Coleridge, porta-voz de um dos Círculos Menores, concentrou a sua intervenção na questão da linguagem utilizada para falar de algumas circunstâncias que constituem algumas preocupações actuais da Igreja. O Arcebispo de Brisbane, Austrália, não acredita que haja alterações na doutrina católica no que toca aos “casos difíceis”, mas sugeriu uma mudança de linguagem tendo em vista uma maior inclusão.
“Será que não podemos arranjar uma forma diferente de dizer determinadas coisas? Uma forma que seja de facto positiva, que aliene e exclua menos?”, questionou.
A título de exemplo, Coleridge referiu a palavra “adultério”, utilizada pela Igreja para tratar segundas uniões. “Compreendo e aceito a doutrina, mas pastoralmente não podemos comparar um segundo casamento sólido, uma relação estável com filhos, a uma aventura entre duas pessoas casadas”, explicou.  
Rejeitando as generalizações, o arcebispo disse ainda ser de grande importância conhecer as histórias destas pessoas de forma individual, realçando que pretende fazer isso mesmo na sua diocese: “estar com elas e ouvir as suas histórias”. No entanto, e apesar de apelar a uma maior inclusão que poderá ser determinada por uma alteração de linguagem, Coleridge sublinhou que não se lembra de ouvir uma única intervenção directa durante o Sínodo a pedir explicitamente a admissão dos divorciados recasados ao sacramento da comunhão.
O prelado australiano afirmou também que o trabalho “não acaba” no próximo Domingo e que “o caminho continua”.
Por seu turno, o cardeal Luis Sistach, arcebispo de Barcelona, destacou a aposta na formação dos casais como a melhor forma de “evitar divórcios”. Para o cardeal, uma separação ou uma declaração de nulidade “envolve sempre sofrimento, revela uma relação que não foi feliz nem conseguiu cumprir os objectivos traçados no noivado”. No fundo, acrescenta, “é um fracasso para os esposos e, sobretudo, com muitas consequências negativas para os filhos. Por isso, mais vale prevenir que remediar”.
A expectativa do cardeal Wilfrid Napier, arcebispo de Durban e vice-presidente do Sínodo, é que o Sínodo “dê um grande impulso às igrejas locais”, para que assegurem bons casamentos através de “uma boa preparação matrimonial, mas também mediante uma boa e autêntica formação sobre o que a Igreja espera do casamento e da forma como este sacramento é celebrado”. O acompanhamento “pós-matrimonial” não pode, igualmente, ser descurado, sobretudo nos primeiros anos de casamento, explica o cardeal enquanto aconselha a colaboração de católicos que adoptem “um jovem casal” e o ajudem a superar as dificuldades.

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