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Casais que vivem juntos antes do casamento: As dúvidas de um pároco

«Oito casais de noivos estão a participar este ano no caminho para o matrimónio na minha unidade pastoral, sete dos quais vivem juntos. A realidade da convivência em comum é assaz difundida e quase generalizada, dado de facto que emerge também da comparação entre párocos.»
Mesmo «entre os “próximos” – os regularmente praticantes, que fazem parte dos grupos ou associações católicas, as pessoas comprometidas como catequistas, animadores ou ao serviço da caridade – não faltam casais que escolhem a convivência pré-matrimonial».
Estas são palavras do padre Antonio Cecconi di Calci, da cidade italiana de Pisa, numa longa carta dirigida a párocos, catequistas e agentes de pastoral publicada na mais recente edição da revista “Settimana”.

A realidade dos casais que vivem em comum antes do casamento está também bem presente no relatório enviado pelos bispos alemães ao Vaticano, em resposta ao questionário do secretariado do Sínodo dos Bispos sobre a Família, que decorrerá em outubro.
Nos comentários das dioceses é «unanimemente constatado que a “convivência pré-matrimonial”» é quase «uma realidade pastoral capilar». A maioria dos casais que pedem o matrimónio religioso convivem há vários anos (as estimativas situam-se entre os 90 e os 100%).
«Creio que faltou da nossa parte, nestes anos, uma atenção à difusão do fenómeno, às suas motivações e, num sentido mais amplo, à evolução/involução de ser casal e fazer família no nosso tempo: matrimónios celebrados quase sempre após os 30 anos, diferidos por motivações psicológicas (a adolescência prolongada), mas também pela crescente precariedade laboral e dificuldades habitacionais», escreve o padre Cecconi.
O sacerdote prossegue: «Sinto um aumento do distanciamento e uma diminuição de empatia por parte da Igreja, em particular de nós padres, em relação ao mundo juvenil, para além da (restrita?) procura dos mais fiéis».
Não se trata de «julgar» a convivência, não serve uma aproximação a partir do «buraco da fechadura», realça o pároco: «Pessoalmente sinto este risco, e sou também testemunha de situações em que um confessor causou desconforto no penitente, às vezes até ao ponto de o afastar da prática religiosa».
Para o padre Cecconi, seria necessária da parte da Igreja uma mudança de perspetiva, para que os esposos não sejam vistos como destinatários mas «ministros do sacramento».
«Limito-me a afirmar a necessidade e a urgência de restituir o matrimónio aos esposos cristãos, entre os quais há muitas pessoas capazes e maduras do ponto de vista teológico, pastoral e espiritual. É preciso encontrar o modo de nós padres (bispos incluídos) frequentarmos a sua escola e, sobretudo, reescrever em conjunto com os esposos cristãos – tendo em conta a graça sacramental específica que os assiste – a ética teológica que lhes diz respeito».
O sacerdote pergunta se «o que precede o ato sacramental do matrimónio não deve ser considerado como um conjunto de atos humanos que manifestam a inicial e progressiva vontade de se tornarem casal, até confluir na fórmula “Eu te recebo…”, com a qual os dois se tornam definitivamente uma só carne».
«A intimidade sexual que vivem desde aquele momento em diante recebe simplesmente a “permissão” da Igreja, para a qual “já não é pecado”? Ou não será antes todo o conviver do casal elevado desde então em diante em instrumento de uma graça que se explicitará em muitas direções: amor recíproco, fecundidade e abertura à vida, a difusão do amor e acolhimento na Igreja e na sociedade?»
«Dou-me conta – acrescenta – que permanecem abertos muitos problemas, entre os quais a escolha quase obrigatória da contraceção antes do matrimónio». Mas mesmo sobre esta questão, como outras, «não será tempo de retomar o discurso com um protagonismo mais acentuado dos casais crentes, por demasiados anos deixados a “arranjarem-se a eles próprios” numa difusa conjura de silêncio sobre o assunto?»
A resposta das dioceses alemãs ao questionário refere uma conclusão semelhante: «Na organização do sínodo extraordinário de 2014, devem-se realmente levar a sério os cônjuges e as famílias como sujeitos da pastoral conjugal e familiar, envolvê-los ativamente na preparação dos sínodos e fazê-los participar de modo adequado nas consultas».


Fabrizio Mastrofini

Trad.: rjm/SNPC

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