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Mensagens

Tempo para a Família

O VERBO SONHAR

Aquele lugar vazio dilatava o mundo.  Assegurava-nos, sem palavras, que a felicidade existe.
É impossível não ficar consternado quando, ao tornear o magnífico monte solitário, em vez de uma enseada silenciosa e vazia nos deparamos com um aglomerado onde a construção imobiliária se atropela, numa vertigem de dinheiro e ódio pela paisagem natural. Dir-me-ão que não é exemplo único. Sim, infelizmente não é. Mas aquela enseada teve como locatário único, durante séculos, apenas o vento. O vento que naquela franja do litoral se fazia lento, rastejava mansamente aplainando a areia, construía a caixa acústica para apurar as múltiplas possibilidades do seu assobio, esculpia as rochas negras que entravam como dóceis animais imóveis pelo mar adentro. O mar tinha o mesmo aspeto do cobre, um verde fundo cheio de cambiantes líquidas e azuis, mas ali incrivelmente límpido. Aquele lugar vazio — como dizê-lo? — dilatava o mundo. Assegurava-nos, sem palavras, que a felicidade existe. Aquele lugar era bel…

O VERBO REPOUSAR

Porque resistimos tanto a parar e a encontrar formas de repouso que nos devolvam a nós próprios? Por uma razão simples: achamos que o ativismo descomplica e a quietude nos atrasa, abrindo o tampão das nossas motivações mais profundas.
Há um curioso conto da sabedoria islâmica que fala de um homem que perde uma chave dentro de casa. Porém, como no exterior há mais luz e se vê melhor, em vez de a procurar no sítio onde a perdeu, vem colocar-se confortavelmente a buscá-la ali. Parece bizarro, mas acontece-nos a todos com frequência: buscamos onde julgamos ser mais fácil e não necessariamente no sítio onde seria razoável que o fizéssemos. Por exemplo: porque resistimos tanto a parar e a encontrar formas de repouso que nos devolvam a nós próprios? Por uma razão simples: achamos que o ativismo descomplica e a quietude nos atrasa, abrindo o tampão das nossas motivações mais profundas. O movimento parece mais fácil: ele preenche o tempo, mantém-nos ocupados dentro dos seus círculos em vertigem…

TUDO COMEÇA PELO ESPANTO

Uma das grandes virtudes que precisamos de reencontrar é a arte do espanto, pois é verdadeiramente por aí que tudo começa...

Lembro-me muitas vezes de um ensaio da escritora italiana Natalia Ginzburg sobre aquilo que os pais transmitem aos filhos. E a opinião dela é que os pais parecem esgotar o seu papel no ensinamento das pequenas virtudes, e frequentemente se demitem de dizer uma palavra ou tomar uma iniciativa sobre as grandes. É como se todo o nosso sistema de valores educativos se restringisse à aprendizagem do que é o senso comum adquirido, aquilo que de uma forma ou de outra se respira no ar, escolhendo assim a estrada mais cómoda. O pior, porém, é o que, neste modelo educativo, se deixa a descoberto em termos da aventura humana como aventura de construção do sentido. E Natalia Ginzburg dá exemplos. A relação com o dinheiro é um deles. Os pais sentem o cuidado de ensinar os filhos a poupar e a utilizar de forma parcimoniosa os recursos financeiros, mas sentem menos, como tarefa…

MANIFESTO A FAVOR DAS REFEIÇÕES EM FAMÍLIA

As refeições são para ser desfrutadas em família e a convivência tem obrigatoriamente que fazer parte dessa rotina. É preciso que haja um diálogo, uma partilha real de conversas, interesses, pontos de concórdia e também de discórdia
Do ponto de vista histórico, as refeições sempre foram um momento de partilha e de convivência, mas hoje em dia parece que esse significado se “evaporou”. Não percebo muito bem o porquê de isso ter acontecido, mas de uma coisa não tenho dúvidas: só depende de nós voltar a recuperar o que se foi perdendo!

Quer ser um bom pai?

Veja os conselhos do Papa Francisco A sabedoria do Papa Francisco em forma de dicas valiosas
“Um bom pai sabe esperar e sabe perdoar, do fundo do coração”, afirmou o Papa Francisco durante uma catequese na qual refletiu sobre o papel do pai na família, colocando como exemplo a parábola do Filho Pródigo. O Papa se referiu à função do pai na família, a partir de uma perspectiva positiva, deixando de lado os “perigos dos pais ‘ausentes’”.
“Toda família precisa do pai”, disse. O pai “sabe bem quanto custa transmitir esta herança: quanta proximidade, quanta doçura e quanta firmeza”, mas também “quanto consolo e recompensa se recebe quando os filhos honram esta herança! É uma alegria que redime todo cansaço, que supera toda incompreensão e cura toda ferida”.

O TEMPO COMO DOM

A verdadeira viagem é aquela que dura tanto que já não se sabe porque se veio ou porque se está
Nós somos duração (ou, pelo menos, “duro desejo de durar”, como Paul Éluard defendia). Quer dizer, trazemos em nós a memória e a presença de tempos muito diversos e isso, por muito que nos custe, é um dom. Conhecer-se é tomar consciência desses tempos que coexistem em nós, mesmo no seu contraste. Gostaríamos que a vida fosse mais linear e harmoniosa, não tivesse a marca daquele solavanco ou daquela ferida, não tivesse atravessado aquele estremecimento. É verdade, para bem e para mal, aquilo que Camus escreveu: “O homem é o único animal que se recusa a ser o que é.” Mas em nós coexistirão sempre o breu e a lâmpada, o tesouro e o barro, e a atitude não é mudar aquilo que não podemos mudar, mas perceber que a ambivalência, em certo grau, também é uma respiração que nos pertence.