A
verdadeira viagem é aquela que dura tanto que já não se sabe porque se veio ou
porque se está
Nós somos duração (ou, pelo menos, “duro desejo de durar”, como Paul Éluard
defendia). Quer dizer, trazemos em nós a memória e a presença de tempos muito
diversos e isso, por muito que nos custe, é um dom. Conhecer-se é tomar
consciência desses tempos que coexistem em nós, mesmo no seu contraste.
Gostaríamos que a vida fosse mais linear e harmoniosa, não tivesse a marca
daquele solavanco ou daquela ferida, não tivesse atravessado aquele
estremecimento. É verdade, para bem e para mal, aquilo que Camus escreveu: “O
homem é o único animal que se recusa a ser o que é.” Mas em nós coexistirão
sempre o breu e a lâmpada, o tesouro e o barro, e a atitude não é mudar aquilo
que não podemos mudar, mas perceber que a ambivalência, em certo grau, também é
uma respiração que nos pertence.