O que aproxima os amigos, o que os liga entre si é a descoberta de uma
afinidade interior, puramente gratuita, mas suficientemente forte para fazer
persistir no tempo o afeto, a cumplicidade, a relação e o cuidado. Se quisermos
explicar que afinidade é essa nem sabemos. E isto é verdade tanto na amizade
anónima que, por exemplo, dois miúdos do mesmo bairro estarão agora a iniciar,
como nas amizades célebres, como aquela de Montaigne por Étienne de La Boétie,
que levou o primeiro a escrever: “Na amizade, as almas mesclam-se e fundem-se
uma na outra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de
sorte a não mais a encontrarem.