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Não te atormentes!

Guarda-te de julgar.
Priva-te do pessimismo e das mordidas nos calcanhares alheios.

Guarda-te de sentir que sabes o que vai do lado de lá da barricada de cada pessoa.
Priva-te dos sobrolhos franzidos e dos assuntos que mastigam raivas de estimação.
Guarda-te dos olhares reprovadores e das opiniões de quem não seria capaz de fazer melhor.
Priva-te de devolver na medida do que receberes. Se receberes críticas que não te constroem ou reparos que não (te) acrescentam sabedoria, não digas nada. Esconde o silêncio atrás do teu melhor sorriso.
Guarda-te de fazer como te fizeram a ti.
Priva-te das lamúrias e das queixinhas ruminantes e cortadoras de voos altos.
Guarda-te de achar que sabes tudo.
Priva-te da arrogância de quem já viveu o suficiente para saber como esta ou aquela história acabam.
Esconde-te das vinganças pequeninas e inofensivas.
Priva-te das enumerações de certezas. Convence-te: cada um tem as suas e quase nunca correspondem.
Esconde-te de quem teima em colocar-te os pés em cima em vez de te dar as mãos.
Guarda-te de ir atrás do rebanho.
Priva-te do fazer o que todos fazem.
Não te atormentes com tragédias pintadas por quem não conhece histórias bonitas.
Guarda-te de responder a quem te fez mal.
Priva-te do sofrimento desnecessário e das preocupações que não te dizem respeito.
Esconde-te de quem não te deixa ver que ainda há muito mais para descobrir.
Guarda-te. Esconde-te. Priva-te.
Guarda o que te faz bem.
Grita como quem canta.
Fala como quem reza.
Olha como quem abraça.
Avança como quem sabe que, por maior que seja o muro, do lado de lá há sempre luz.

Por  Marta Arrais

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