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Mensagem da Quaresma 2017 D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga

Família, “casa” onde o outro se encontra e descobre

O ritmo da liturgia apresenta-nos, uma vez mais, a Quaresma como um tempo especial. São quarentas dias que Deus nos oferece para nos desvincularmos das preocupações quotidianas e nos centrarmos Nele. Nenhum de nós foi feito para a mediocridade. Olhar para Cristo é, por isso, o reconhecimento de que alguém nos supera, nos fascina e nos pede voos maiores. Em síntese, Cristo pede-nos uma vida nova centrada N’Ele.
É possível que, para algumas pessoas, estas palavras sejam de difícil compreensão. O que significa uma vida centrada em Cristo? Significa reconhecer que Cristo está vivo e ocupa um lugar especial na minha vida. Significa também reconhecer que a Sua presença é, para mim, fonte de alegria.
Admito que nem sempre “sentimos”, como gostaríamos, a presença de Cristo. Sentir como aquele que vê com os próprios olhos ou toca com as próprias mãos. Existe um certo Tomé em cada um de nós. A presença de Cristo é suave, subtil e quase imperceptível. Reconhecê-lo é um acto de fé que carece de tempos e lugares adequados. São, sobretudo, momentos de contemplação com paciência e persistência.
Nesta Quaresma, gostaria de recordar dois caminhos para o encontro com Cristo.


Os olhos do sofredor falam de Cristo. O Santo Padre, o Papa Francisco, é categórico ao afirmar que “fechar o coração ao dom de Deus que fala tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão”. A sensibilidade para o divino treina-se com o exercício da fraternidade. Pobres de nós quando passamos adiante do sofredor ou aproveitamos e exploramos aquele que pouco ou nada tem. O pobre e o mais débil oferece-nos muito quando lhe damos a nossa atenção, delicadeza, carinho e, em muitos casos, a esmola que dá alento e coragem.

Educar para a vida. A Quaresma, apesar do seu timbre introspectivo, é um tempo de abertura e de preparação para a vida. Vida que nasce, antes de mais, da escuta da Palavra, da reflexão e da defesa de valores inalienáveis. Diz o Papa Francisco que é necessário aproveitar estes tempos para uma “corajosa acção educativa em favor da vida humana”. Permitam-me ser claro: a vida da criança que está para nascer ou da pessoa que está para morrer é sagrada. A vida é um direito fundamental e inviolável! Escapa ao nosso domínio determinar sobre algo que nos ultrapassa. Vida é, em todas as circunstâncias, vida.

O outro é sempre um dom. Experimentamos esta verdade sobretudo na família, entre os esposos, entre pais e filhos, avós e netos. Daí a necessidade de tornar a família uma “casa” onde Maria mora. Aprofundamos assim a gratuidade do amor e tornámo-la escola para viver com e para os outros. Trabalhemos a família e dediquemo-lhe tempo para que se torne o que é em essência: lugar de encontro com o outro que percorre a vida com dedicação universal, carinhosa, sacrificada, mas também alegre pois o amor nunca cansa.
Glorifiquemos o Senhor e alegremo-nos em Deus, tornando a Quaresma um tempo favorável para acolher o dom da Palavra e o dom do outro. Acolhendo estes dons, com o tempo e energia que lhes consagramos, testemunharemos os frutos de uma vida espiritual madura e de uma sensibilidade humana. Segundo o nosso Programa Pastoral, trabalhando a penitência através da triologia do jejum, oração e esmola, descobriremos, neste ano mariano, a identidade cristã no quotidiano da vida.
Não desperdicemos esta graça! O outro é dom, sobretudo na família e, a partir daí, com todos na predilecção dos mais débeis.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz



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