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DESCONVERSAR

A amizade é um milagre, mantendo, serenamente, a aparência de que não há ali milagre algum.

Há dias deu-se isto. Estava a jantar com um amigo que não via há uns anos — aproveitei uma viagem à cidade onde ele vive para telefonar-lhe e retomar o contacto — e perto do final da refeição, conversa puxa conversa, vem à baila o tempo em que convivemos mais de perto. Com muita simplicidade, este amigo conta-me que foi um tempo muito importante para ele. E explicou porquê, naquela maneira e naquele tom que qualquer um de nós toma para explicar a relevância da amizade na construção que fazemos de nós próprios. A amizade amplia, revela, empurra, inaugura, aprofunda, diverte... e por aí fora. A amizade é um milagre, mantendo, serenamente, a aparência de que não há ali milagre algum: trata-se apenas da naturalidade da vida a funcionar. Fiquei a pensar no que ele me disse, mas ainda mais na minha reação. Ao escutá-lo, surpreendi em mim um embaraço, e fiquei a perguntar-me de onde viria, pois tinha reagido como se aquelas palavras necessárias, aquelas palavras que devemos aos outros, tivessem de continuar implícitas e não pronunciadas.
O meu amigo queria dizê-las e insistia, mas eu desconversava, encolhendo os ombros, dizendo que estas coisas são assim, que não há nelas mérito nem história alguma, que o que recebemos é sempre mais, esforçando-me por passar adiante. No entanto, depois de nos despedirmos, envergonhava-me a tola dificuldade de escutar com atenção (e, também por isso, com gratidão) o modo como passamos pela vida uns dos outros. É-nos mais confortável sequestrar as nossas relações no óbvio e no não-dito, deixar correr sem mais, do que trazer à superfície o perfume do jardim que, a muitas braças de profundidade, outros e outras, consciente ou inconscientemente, plantam em nós.

O que me deixou mais perplexo é que eu próprio tinha estado, há pouco, numa situação simétrica. Tive num dos seminários por onde passei um formador que desempenhou um papel importante no meu trajeto. Pequenas e grandes coisas, que representaram muito num determinado período do caminho: a sua forma inteira de estar com os outros, a maneira como nos encorajava a sermos nós próprios, o modo como se alegrava com as nossas alegrias e até o facto de saber de cor, e gostar de recitar só por beleza, dois ou três poemas de Mário de Sá Carneiro. Agora reencontro-o de vez em quando noutras funções e a nossa conversa, sempre cordial, tornou-se infelizmente cerimoniosa: serve para despachar assuntos, não para nos auscultarmos. No entanto, gostava um dia de dizer-lhe, porque nunca lho disse, como foi importante para mim, explicar como o dom do seu estímulo frutificou, mas ou não tenho encontrado a circunstância ou não me vêm as palavras. Há dias, por exemplo, no final de um evento ficámos para trás sozinhos a conversar. E eu pensei: é hoje. Mas quando julgamos que vamos parar de desconversar e dizer aquilo que realmente nos apetecia, a voz sai num murmúrio, é um fio inaudível que não reconhecemos, perdemos a confiança, damos por nós já em pleno embaraço, tossimos para ocultar a momentânea aflição e voltamos à desconversa, como um náufrago regressa ao lugar inútil onde a embarcação se afundou.

Tenho estado a ler o incrível livro do Nelson Rodrigues, “A Menina Sem Estrela”, que a Tinta da China recentemente editou e sublinhei estas palavras: “Descobri que não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. Como me doía não ter dito (...) tudo, não ter feito as confissões extremas. Eu percebia, ali, que nós olhamos tão pouco as pessoas amadas.” A isto chama-se desconversar.


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